Naquele dia que a flor nasceu torta
o sol foi rápido demais
a ponte quebrou por causa da chuva
os olhos ficaram vesgos
Foi naquele mesmo dia que você pareceu torto demais pra mim.
tinha mexido o nariz de forma estranha
escrito as cartas em prosa
cantado música de ieieie
e errado a porta da minha casa.
Foi quando os quadros ficaram tapados com panos de algodão.
E não apareciam mais.
porque você estava torto demais pra mim.
Aí eu mudei de rua
troquei a fechadura
coloquei guirlanda na porta
e sinos que mexem no vento.
Para sentir o movimento e andar
andar para que o movimento não acorde.
21 dezembro 2005
18 dezembro 2005
Quando todas as camadas são superfícies
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_________meninas rainhas__________
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_______coelhos___________________
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____pêlos___________
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_________meninas rainhas__________
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_______coelhos___________________
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____pêlos___________
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13 dezembro 2005
a menina está com um buraco na barriga
alguma coisa mudou.
A menina apareceu de novo com um buraco na barriga, mesmo com o seu cavalinho.
Olhando para baixo, truculentas melancolias gratuitas aparecem porque se pensa demais
mas dessa vez não aconteceu porque se pensava demais.
Aconteceu porque aconteceu, porque foi possível.
Jogou os dados e caiu no lado "sentimentos estranhos"
preciso dormir, amanhã já passou, e a chuva vai tranquilizar essa vista cansada...
A menina apareceu de novo com um buraco na barriga, mesmo com o seu cavalinho.
Olhando para baixo, truculentas melancolias gratuitas aparecem porque se pensa demais
mas dessa vez não aconteceu porque se pensava demais.
Aconteceu porque aconteceu, porque foi possível.
Jogou os dados e caiu no lado "sentimentos estranhos"
preciso dormir, amanhã já passou, e a chuva vai tranquilizar essa vista cansada...
12 dezembro 2005
Quando a cidade cheira a frango assado (dois anos de espera)
A cidade cheira a frango assado aos sábados
A partir das onze horas eles estão espalhados por todo o caminho que eu fazia na kombi.
Eu apertava meu nariz para não sentir o cheiro
fechava meus olhos para não ver a brasa
colocava algodão nos ouvidos para não ouvir "crakcs" crocantes.
A cidade também cheira a frango no domingo.
Pelo menos eu acho isso porque na padaria da esquina eles também giravam no domingo.
A partir das onze horas eles estão espalhados por todo o caminho que eu fazia na kombi.
Eu apertava meu nariz para não sentir o cheiro
fechava meus olhos para não ver a brasa
colocava algodão nos ouvidos para não ouvir "crakcs" crocantes.
A cidade também cheira a frango no domingo.
Pelo menos eu acho isso porque na padaria da esquina eles também giravam no domingo.
08 dezembro 2005
meninos eufóricos
Comer as baboseiras dos homens inteligentes e fazer galhofas
o Deus mundano que peca por não estar nas coisas
Quando são os meninos que:
dançam de mão dada
choram porque algo é bonito
fazem euforia por causa dos passarinhos
pensam nas formigas
criam espaços nas vielas dos amores
e colocam sentidos nos hábitos dos dias.
e fazem isso todos os dias, para que as coisas continuem um caos.
borbulhando as multidões, dentro de poucos meninos.
Aos pequenos dudu, bia, luame, búno,luiz, léo e rarissa.
o Deus mundano que peca por não estar nas coisas
Quando são os meninos que:
dançam de mão dada
choram porque algo é bonito
fazem euforia por causa dos passarinhos
pensam nas formigas
criam espaços nas vielas dos amores
e colocam sentidos nos hábitos dos dias.
e fazem isso todos os dias, para que as coisas continuem um caos.
borbulhando as multidões, dentro de poucos meninos.
Aos pequenos dudu, bia, luame, búno,luiz, léo e rarissa.
01 dezembro 2005
A poesia que faz chorar
A você poesia que me fez chorar tantas vezes
que transbordou potências nos olhos que nunca morrem
que perdurou anos no meu pensamento
orgulhosa de tê-la
choro pelo belo
e porque existe.
Me fez olhar um Deus das coisas
me fez pensar que ele era nosso
cometeu o pecado de torná-lo mundano.
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pela estradas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar.
Alberto Caeiro
que transbordou potências nos olhos que nunca morrem
que perdurou anos no meu pensamento
orgulhosa de tê-la
choro pelo belo
e porque existe.
Me fez olhar um Deus das coisas
me fez pensar que ele era nosso
cometeu o pecado de torná-lo mundano.
Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer à terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
Um dia que Deus estava a dormir
E o Espírito Santo andava a voar,
Ele foi à caixa dos milagres e roubou três.
Com o primeiro fez que ninguém soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que há no céu
E serve de modelo às outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E que toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas pelas estradas
Que vão em ranchos pela estradas
com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.
Depois eu conto-lhe histórias das cousas só dos homens
E ele sorri, porque tudo é incrível.
Ri dos reis e dos que não são reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comércios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Ele dorme dentro da minha alma
E às vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Põe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criança, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histórias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E dá-me sonhos teus para eu brincar.
Alberto Caeiro
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