30 setembro 2008

Estrangeiro

"E nessas ilhas cheias de distância, meu blusão de couro estragou"
Tudo outra vez - Belchior.
Estrangeirismo
de alguém que se perdeu no movimento
que a distância
fez aparecer uma outra coisa
que não é o que era.
.
Era eu nativa de mim
que transformei o "é" e o "aí" no "foi".
e tudo estranha
o "é" da consciência
e o "foi" que vai.
.
Parece um eterno longe de casa.

04 setembro 2008

Por uma vida não-burocrática

"O universo é um vasto signo concreto que se move."

Murilo Mendes

19 agosto 2008

Estrudamento.

O negócio é abrir possibilidade com o pé.

Sem alvo, sem horizonte...
com morro, com esquina, estrada...

20 julho 2008

A Centralidade do Trabalho

Triste de quem vive em casa,
Contente com o seu lar,
Sem que um sonho,
no erguer de asa
Faça até mais rubra a brasa
Da lareira a abandonar!
Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz
Ter por vida a sepultura.
Eras sobre eras se somem
No tempo que em eras vem.
Ser descontente é ser homem.
Que as forças cegas se domem
Pela visão que a alma tem!
E assim, passados os quatro
Tempos do ser que sonhou,
A terra será teatro
Do dia claro,
que no atro
Da erma noite começou.
Grécia, Roma, Cristandade,Europa
os quatro se vão
Para onde vai toda idade.
Quem vem viver a verdade
Que morreu D. Sebastião?
O Quinto Império - Fernando Pessoa




Se o trabalho não existe, sumiu
Ele deve ter se escondido todo dentro de mim

[escondido em tudo

Um autômato que anda somente no estímulo da sirene
não caminha.

Um atônito
É uma necessidade andante
que uma estética viva.

A felicidade da necessidade
fala aos ouvidos
sempre querendo pegar
a ansiedade.

16 julho 2008

Conhecidos

Só sei experimentar meu coração

É por isso que o portão do sol abre um abismo
Que não experimenta uma vida andina.

Só sei experimentar o coração
De quem andou por caminhos conhecidos
Entre Niterói e o Rio

28 maio 2008

Hoje em Sempre

Estamos em hoje
abrindo trópicos a caminho dos mitos

O que vem de que vem
sem sentir, sente um homem que vem
já veio
de um tempo desamarrado de raízes técnicas.

Mas quando a mistura do caminho em pura areia marrom entra nos nossos ombros
com esse peso dos do sul...ah, como essas montanhas pesam...

20 dezembro 2007

boliviano

Esse vulcão que é a cor de pele
do índio que espalha o vermelho
no lugar das pratas apanhadas.

Mas que força tem o duro potosiano
diante da vida aberta aos montes
acendendo rios de força e montanhas?

O portão do sol
toma cuidado
vem lento
soltar os murmúrios.

Para abraçar um todo
todo povo crescido junto
não sendo irmão
mas sendo tudo, sendo a mistura
que transborda o sol latinado
embriagado do vermelho-moreno.

em montanha
em rio
em llama
em homem.

29 novembro 2007

É melhor perder a fala.

Que coisa é essa que aponta
como o tremer de bússola
que escolhe
quem vai escolher a vida do outro?

E se pensar que o bom senso
vai fechando a abertura de uma vida
Será que escolher é a melhor palavra pra tudo isso?

E se eu, com 30 anos, me perder de esterilidade?
Será que vai ser possível encher a vida de vazio?

E a necessidade, a virtuosidade e o bom senso fazem parte de um abraço comum?

Bom, ruim ou caixinha de música.
Eu nem sei como se mistura isso.

31 outubro 2007

um milhão de pés.

Anda que nem pensa
faz que mal acaba
troca de perna
tem milhões de sapatos

É a centopéia, minha gente,
abrindo possibilidade com o pé.

02 outubro 2007

Memória que escapa do tudo: aqui nasce uma declaração imemorial de amor.

Sim, quero atentar para a felicidade
que se tudo pode ser embaçado pela memória
o meu tudo não abarca você.

Névoa que não atinge um sorriso aberto
que fica no abraço
bate o pé
toca trombeta
almofadas-bochechas.

Pra não esquecer
nunca esquecer
que existe a maior felicidade do mundo

na memória que escapa do tudo, da névoa, do obscuro.

Eu te amo
no coração memorial que escapa do tudo.

24 setembro 2007

Tropa DA elite ou Matou na favela e foi ao cinema


Adriana Facina(UFF/Observatório da Indústria Cultural)

Mardonio Barros(MST/Observatório da Indústria Cultural)


“Homem de preto,
qual é sua missão?
É invadir favela
E deixar corpo no chão.”


Esse “canto de guerra” é um dos muitos entoados pelo BOPE (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar) nos seus treinamentos. Muito significativo e direto, já que mostra claramente onde se localizam os inimigos a serem abatidos. Trata-se de uma guerra contra os pobres, recrudescida em tempos neoliberais nos quais a contrapartida da criação de uma sociedade do desemprego é a necessidade das classes dominantes ampliarem não somente os meios para obtenção do consenso, mas também os instrumentos coercitivos que mantenham os oprimidos sob controle.
Em meio às crescentes denúncias contra a atuação do BOPE nas favelas cariocas, que se pauta por uma política deliberada de extermínio ao arrepio do Estado de direito, surgem nas ruas da cidade cópias do filme Tropa de elite, antes mesmo de seu lançamento no cinema, previsto para o mês de outubro. Tropa de elite já é um sucesso de público, está “na boca do povo”, fascina adolescentes e mesmo crianças de classe média, e reúne no orkut uma comunidade com mais de 55 mil membros. Virou também assunto da imprensa, devido ao suposto vazamento da cópia não autorizada, que acarretou processos e ameaças de prisão dos envolvidos.
Com produção no estilo hollywoodiano, o filme tem como ponto de partida o livro Elite da tropa, escrito pelo sociólogo e ex-subsecretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro Luiz Eduardo Soares, pelo capitão do BOPE André Batista (negociador no seqüestro do ônibus 174) e por Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE. Mas não reproduz fielmente nas telas as histórias nele contadas. O personagem central nessa articulação é Rodrigo Pimentel, um dos roteiristas do filme. Pimentel foi “descoberto” no documentário Notícias de uma guerra particular, de 1997, dirigido por João Moreira Salles e Kátia Lund e forneceu o mote do título do filme, enunciando uma tese que vem ganhando fôlego e pautando as políticas de segurança pública do Estado: vivemos num estado de guerra entre, de um lado, o Estado e os “cidadãos de bem” e, de outro, os bandidos/traficantes. E não se trata de qualquer guerra. Mas sim de uma guerra total que, nos moldes da “guerra ao terror” empreendida por Bush, justifica a suspensão dos direitos humanos e legitima práticas ilegais como torturas e execuções sumárias com base na idéia de que elas são necessárias para garantir a segurança pública. É preciso lembrar ainda que argumento semelhante foi amplamente utilizado, na história recente do país, para justificar os arbítrios cometidos pelo Estado durante a ditadura militar. No caso do filme, é o narrador, capitão Nascimento, que afirma: “se o BOPE não existisse, os traficantes já teriam tomado a cidade há muito tempo”. Nessa lógica de um tudo ou nada distorcido, quem defende direitos humanos, defende os bandidos e é cúmplice da violência urbana que assola a cidade.
Cúmplices são também os que consomem as drogas ilícitas vendidas nas favelas. O tráfico de armas (e a indústria bélica que dele se beneficia), as ligações extra-favela do tráfico que, como todos sabem, atingem autoridades que organizam de fato as redes do crime, cujo elo mais fraco são os “vagabundos” assassinados cotidianamente pelo Estado, não são levados em conta nesse argumento. Numa das cenas mais chocantes do filme, capitão Nascimento, após comandar uma ação que resulta na morte de um traficante, esfrega o rosto de um estudante, que estava na favela consumindo drogas, em cima do sangue que sai do buraco aberto pela bala no peito do jovem morto e pergunta se ele sabia quem havia matado o rapaz. O estudante diz que foi um dos policiais, ao que Nascimento responde: “um de vocês é o caralho! Quem matou esse cara aqui foi você. Seu viado, seu maconheiro, é você quem financia essa merda. A gente sobe aqui pra desfazer a merda que vocês fazem.”
Portanto, coerção e consumo estão no centro das teses que organizam o filme.
Tropa de elite conta a história do drama privado do capitão Nascimento, significativo nome para um oficial “padrão” de uma polícia que tem como símbolo uma faca na caveira. Capitão Nascimento vai ser pai e o nascimento de seu filho o impulsiona a buscar um substituto no comando de uma guarnição do BOPE. Cansado da “guerra” cotidiana travada nas favelas cariocas, com síndrome do pânico e pressionado pela esposa grávida, Nascimento é um herói humanizado, um personagem complexo, ao mesmo tempo forte, incorruptível, carismático e também frágil, capaz de sentir remorsos pela morte de um menino fogueteiro, denominado por ele “sementinha do mal”, que resulta de uma operação sob seu comando.
Os candidatos a substituto de Nascimento são Neto e Matias, aspirantes a oficiais da polícia militar que se negam a participar dos esquemas de corrupção da corporação e, por conta disso, acabam se incorporando ao curso preparatório do BOPE. Neto é descrito como tendo a polícia no coração. Destemido e impulsivo, exímio atirador, gostava dos combates nas favelas e era o favorito de Nascimento. Seu amigo Matias, negro e de origem pobre, era mais racional, “gostava da lei” e se dividia entre ser estudante de direito da PUC e pertencer à polícia. Seguindo a classificação de Nascimento, os policiais cariocas só têm três alternativas: “ou se corrompem, ou se omitem ou vão para guerra”. Aprendizes de heróis, Neto e Matias só poderiam seguir a terceira opção.
Por conta da faculdade, Matias se envolve com uma menina de classe média alta que dirige uma ONG patrocinada por um político no Morro dos Prazeres e “fechada” com o chefe do tráfico na favela. A princípio, seus colegas da faculdade, ligados à ONG, não sabem que Matias é policial. Todos os estudantes são consumidores de drogas ilícitas. Um deles é “avião” e vende drogas na universidade.
Baiano, o chefe do tráfico na favela da ONG, assim como os colegas e a namorada de Matias descobrem que ele é policial através de uma foto que sai publicada nas páginas de um jornal. Esse fato desencadeia uma série de eventos que culminam na morte de Neto e na conversão definitiva de Matias em oficial do BOPE durante a caça a Baiano, motivada pela necessidade de vingar a morte do amigo. O policial que “gostava da lei” passa a torturar e executar, provando assim sua conversão de corpo e alma. O homem preto se torna homem de preto, “caveira, meu capitão”.
Nossos mariners tupiniquins são apresentados como soldados muito bem treinados, capazes de suportar um treinamento destinado a poucos, uma elite exemplar com um papel fundamental no estado de sítio em que vivemos: conter os pobres. Tropa de elite recolhendo corpos supérfluos daqueles que, em outros tempos, eram exército de reserva de mão-de-obra e que hoje, em meio ao desemprego estrutural e à ditadura do capital financeiro, são o lixo da sociedade.
A necessidade de conter (e mesmo eliminar) os pobres é o objetivo dessa guerra particular ou privada e, nesse contexto, uma tropa de elite se configura como uma tropa DA elite, necessária para garantir a ordem e o respeito à propriedade privada. Isso explica porque 100% das operações do BOPE são realizadas em favelas.
No filme, o discurso que legitima o BOPE e suas ações é persuasivo e se articula em três níveis. Num primeiro nível, o BOPE aparece como uma resposta à ineficiência e corrupção da “polícia convencional” e aos políticos que a alimentam. Assim, essa elite de policiais é apresentada como incorruptível e como um padrão a ser seguido, de referência internacional. O lema “faca na caveira e nada na carteira” resume esse discurso moralista e pragmático que atende perfeitamente aos apelos midiáticos por ordem e moralidade.
Um segundo nível pode ser identificado na apresentação do BOPE como uma seita que, através de um árduo rito de passagem – o curso de treinamento -, seleciona homens fortes, honestos e “formados na base da porrada”, preparados para resistir às piores provações. A seleção é a base da consolidação de uma camaradagem entre essa elite, em oposição àqueles que “nunca serão”, reatualizada nas práticas cotidianas de transgressão da lei. Numa das cenas do filme, um coronel e seus comandados, entre eles Nascimento, estão organizando as turmas do curso preparatório. Entre risadas e num clima descontraído, o coronel diz que não quer saber de tímpano perfurado em aula inaugural e de mão cortada. Mesma complacência para com os “excessos”, que afinal sempre podem ser “merecidos”, que ocorrem durante as operações nas favelas. Em tempos de fragmentação, individualismo e consumismo, podemos imaginar o apelo desse discurso que louva um corpo de homens unidos por um forte sentimento de pertencimento a uma elite e por um orgulho quase racial, seres superiores, elevados, em meio ao mundo de miséria, fraqueza e corrupção. Homens de caráter em tempos de corrosão do caráter.[1]
O terceiro nível desse discurso persuasivo é o do indivíduo, de seus dramas pessoais, que humaniza o herói e o aproxima dos seres humanos comuns, capazes de se reconhecerem e se identificarem com ele. Capitão Nascimento é o herói que sacrifica a vida pessoal e que não estende sua brutalização à vida privada. Como na cena em que ele, durante uma operação na favela, logo depois de se emocionar ao ouvir ao celular o coração do filho batendo na barriga da mãe, manda seu subordinado atirar dizendo: “senta o dedo nessa porra!”. Ou no momento em que, de farda, vindo da “guerra”, chora ao ver seu filho recém-nascido na maternidade. Nascimento trata sua mulher de forma amorosa e se sensibiliza com as pressões que ela faz para que ele saia do BOPE. Com exceção de uma cena, após a morte de Neto, a única em que ele aparece fardado no ambiente doméstico, na qual ele grita: “quem manda nessa porra aqui sou eu e você não vai mais abrir a boca para falar do meu batalhão nessa casa”. Significativamente, após impor seu comando em casa, ele fica curado dos ataques de pânico e joga fora os medicamentos psiquiátricos que estava usando.
Todos esses níveis se articulam em torno da naturalização da idéia de que vivemos num estado de exceção, uma situação atípica que demandaria regras também atípicas para sua solução. Essa naturalização permite um relativismo de valores e práticas, de direitos e garantias no que dizem respeito à dignidade da vida humana. Falar em direitos humanos não faz nenhum sentido num estado de coisas que institui valores desiguais para as vidas humanas de acordo com critérios como cor da pele, origem social e mesmo idade, já que os jovens pobres e negros são hoje as principais vítimas de homicídios, bem como formam a maioria da população carcerária do país.
No entanto, é preciso afirmar que o estado de exceção na verdade é a regra sob o capitalismo, que não pode prescindir, sobretudo em sociedades dramaticamente desiguais como a brasileira, do trato brutal com os de baixo.
Não há como não lembrar aqui de um poema escrito por Bertolt Brecht num contexto de vitória do fascismo na Europa, no qual outros homens de preto, em defesa da ordem do capital, esvaziaram de significado a palavra humanidade:

A exceção e a regra

Estranhem o que não for estranho.
Tomem por inexplicável o habitual.
Sintam-se perplexos ante o cotidiano.
Tratem de achar um remédio para o abuso.
Mas não se esqueçam de que o abuso é sempre a regra.



[1] Richard Sennet. A corrosão do caráter. Conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo. Rio de Janeiro, Record. 1999.
* Texto publicado em http://oicult.blogspot.com/.
.

29 agosto 2007

Uma daquelas belezas realmente agenciadoras.

Terry Eagleton- Ideologia: Uma introdução. pág. 13

"O estudo da ideologia é, entre outras coisas, um exame das formas pelas quais as pessoas podem chegar a investir em sua própria infelicidade. A condição de ser oprimido tem algumas pequenas compensações, e é por isso que às vezes estamos dispostos a tolerá-la. O opressor mais eficiente é aquele que persuade seus subalternos a amar, desejar e identificar-se com seu poder; e qualquer prática de emancipação política envolve portanto a mais difícil de todas as formas de liberação, o libertar-nos de nós mesmos. Mas o outro lado da história é igualmente importante. Pois se tal dominação deixar, por muito tempo, de propiciar suficiente gratificação a suas vítimas, então estas com certeza acabarão por revoltar-se contra ela. Se é racional acomodar-se a uma mistura ambígua de sofrimento e prazer marginal, quando as alternativas políticas mostram-se perigosas e obscuras, é também racional rebelar-se quando o sofrimento ultrapassa em muito as gratificações, e quando tal ação parece encerrar mais ganhos do que perdas.


A crítica da ideologia, portanto, supõe que ninguém jamais está inteiramente iludido - que aqueles que se encontram sob opressão alimentam, mesmo assim, esperanças e desejos que só poderiam ser realizados, de maneira realista, pela transformação de suas condições materiais. Se por um lado rejeita o ponto de vista externo da racionalidade iluminista, por outro compartilha com o Iluminismo essa confiança fundamental na natureza moderadamente racional dos seres humanos. Alguém que fosse totalmente vítima da ilusão ideológica sequer seria capaz de reconhecer uma reivindicação emancipatória sobre si; e é porque as pessoas não param de desejar, lutar e imaginar, mesmo nas condições aparentemente mais desfavoráveis, que a prática da emancipação política é uma possibilidade genuína..Não se
14
trata de afirmar que os indivíduos oprimidos secretamente acalentam alguma alternativa pronta para sua infelicidade; significa que, uma vez que se tenham libertado das causas desse sofrimento, devem ser capazes de olhar para trás, reescrever suas histórias de vida e reconhecer que aquilo de que desfrutam agora é o que teriam desejado anteriormente, caso tivessem podido estar conscientes disso. Uma prova de que ninguém é, ideologicamente falando, um tolo completo, é o fato de que as pessoas ditas inferiores devem realmente aprender a sê-lo. Não é suficiente para uma mulher ou um colono serem definidos como uma forma de vida inferior: é preciso ensinar-lhes ativamente essa definição, e alguns deles revelam-se brilhantes bacharéis nesse pro­cesso. E surpreendente quão hábeis, engenhosos e perspicazes podem ser os homens e mulheres em provar para si mesmos que são incivilizados e burros. Em certo sentido, é claro, essa "contradição performativa" é a causa do desânimo político; nas circuns­tâncias adequadas, porém, trata-se de uma contradição que pode levar uma ordem dominante à ruína.

18 agosto 2007

Um ressentimento sem espaço para o novo.

E que novidade arbitrária é essa de colocar meu problema
No novo, que novo, que novo?

Meu poema
Minha ética
Minha estética

Eu sofro de subjetividade.

26 julho 2007

Lição de passar.

Ganha instante casual apenas
quem não inventa o perfume do dia.
Aquele que fala de momento certo com o apreço do hermético.

Se quem escreve, o faz em tempo novo,
há desencontros entre poetas.

Desmedidos são os encontros
armados em nunca.

Instante em pedaços perdidos
é feito de desencontro bem-vindo.


e entende
quem não se entende.

08 julho 2007

Rei em habitar

"As coisas tinham para nós uma desutilidade poética"
Manoel de Barros

Pode um rei continuar rei em meio a um naufrágio?
Em Shakespeare, em meio à tempestade, suplicar ao rei não vale a morte, sacrifício ou posição. “Que importa a estes berradores o nome de rei?” O contramestre diria. “Recorrei a vossa autoridade; mas se ela for inoperante, dai graças ao céu por terdes vivido tanto e ficai nos camarotes preparados para que vossa hora os reservou”. Ser rei é habitar uma posição, uma ilusão que admite possíveis, inclusive a de não sê-lo.

20 maio 2007

A labuta que exila a poesia.

Meu amor entenda,

suas mãos vão tornando-se gelo
na labuta desta vida que gente bonita transforma em poesia.

Nada de falta de tempo
diz
sobre o que destempera corações vívidos.

Precisa aprender
que da labuta a gente não tira só sacrifício
e que tempo de amor pode ser
problema de imemórias.

Óh, meu querido!
Não culpe sua labuta
por falta de tempo para se tornar doce.

Não culpe o trabalho que endurece
e faz dizer essas coisas tão tristes.

Já que resistir é um horizonte
não esqueça nunca
que da vida, a gente tira um monte.

10 maio 2007

Estéril dia da vinda de uma profissão.

"Andar é reconhecer"
Amarante

Perguntava se em transição a gente fica estéril por causa do medo.
E o novo arrebentava com o lugar na vida. Vira deslugar todo o tempo.

E é estranho quando o empurrão vem de fora.

Quando vem de dentro, a gente se prepara. Coloca os pés para o alto, prepara o café com leite e espera, só espera dizer ao mundo o que os sentidos proferiram em espírito.
E até dá para apostar no que vem em seguida, sente mas não entende que qualquer rompante está chegando.

Assim como estação que abraça as coisas.

Mas daí pensar que um projeto feito há tanto tempo chega ao seu fim agora. E aí de novo, julgam o seu ser como fosse o único!!! Quanta injustiça.
Quanto afeto que vem de fora. Quão pouco eu sou de dentro.


É, você anda virando uma tal de historiadora.

E agora? Eu sei?

17 abril 2007

Estamira em além dos aléns

Na beira do mundo
os restos.

Em longe longe
gente invisível.

No céu
urubu.

Na terra
indefesa.

Nada esperto
nada inocente.

Nos remédios
mentiras.

Em tudo
Estamira.

No mundo
um buraco de razão.

No deus
pedra nas mãos.

Nos homens
areia nos peitos.

Tudo em meios imperfeitos.

24 março 2007

Um olhar na rua

Minha anemia cresce

quando os olhos repudiam.

22 fevereiro 2007

O samba se faz com o que vive.

Truculência, meu bem, eu tenho truculência

Nessa minha vida de mal dizer bem feito para toda a gente.
E pensar que só faz bem a quem sabe dizer.


Truculência, meu bem, tenho truculência.

Minha vida é fácil
E na esquina da vida me chegou o pedestal.

Truculência, meu bem, tenho truculência.

Nesse mundo de gira-gira, girei na roda do mal entender.

Truculência, meu bem, tenho truculência.

A maldade tomou conta da ignorância e eu?

Eu perdi a esperança.

Sem rima e sem nada.